Construção Sustentável reduz o consumo de matérias-primas
A Saint-Gobain Portugal aposta na construção sustentável e na descarbonização do setor.
Com forte presença industrial e um centro de I&D em Aveiro a empresa desenvolve soluções com menor pegada de carbono. Asier Amorena, CEO da Saint-Gobain Portugal admite que a construção sustentável pode um investimento inicial 5% a 10% mais elevado, mas garante que compensa no futuro, nomeadamente com reduções que podem ir até 80% no consumo energético e uma valorização do imóvel.
A Saint-Gobain dedica-se ao setor da construção sustentável? O que fazem exatamente?
A Saint-Gobain é líder mundial em construção sustentável. Concebemos, fabricamos e distribuímos materiais e soluções integradas para os setores da construção e da indústria. Com foco na construção leve e no alcance da neutralidade carbónica até 2050, a Saint-Gobain desenvolve, através de um processo de inovação contínua, soluções integradas para a renovação de edifícios públicos e privados capazes de proporcionar, em simultâneo, sustentabilidade e desempenho.
Está presente em 80 países com mais de 161 000 colaboradores e, no último ano, 2024 alcançou 46,6 mil milhões de euros em vendas. Trabalha diariamente para cumprir o nosso propósito: Making the world a better home.
Portugal é uma das geografias onde atuam, uma vez que estão presentes em 80 países - o que fazem de diferente no nosso país?
Em Portugal, além de contarmos com uma forte presença industrial e comercial, destacamo-nos pela proximidade com os nossos parceiros e clientes, com foco em soluções adaptadas ao contexto nacional. Investimos em inovação local através de um centro de I&D em Aveiro, desenvolvemos serviços de apoio à gestão de resíduos, e temos marcas com soluções adaptadas às exigências climáticas, técnicas e regulamentares nacionais.
Quanto investem no centro de I&D e o que já criaram de diferente que tenha tido impacto no setor…
O nosso centro de I&D em Aveiro é um pilar estratégico para o desenvolvimento de soluções alinhadas com os desafios da sustentabilidade, com foco em soluções para a construção leve, eficiência energética e materiais com menor pegada de carbono.
Globalmente, registámos um investimento de 600 milhões de euros dedicados a Investigação & Desenvolvimento (I&D) em 2024, além de 251 milhões de euros investidos na estratégia de descarbonização em 2024 (CAPEX e I&D).
Trabalham com quantos investigadores?
Atualmente, contamos com 3.800 investigadores, oito centros de investigação e desenvolvimento transversais e contabilizámos mais de 450 patentes registadas em 2024. De salientar ainda que temos em desenvolvimento cerca de 35 acordos de investimento ou colaboração assinados em 2024 com startups.
Pode dar exemplos?
Podemos dar dois exemplos com impacto no setor: o desenvolvimento de argamassas com componentes reciclados e biológicos (como cortiça natural) e o weberfloor pump truck, um serviço mecanizado inovador para aplicação de pavimentos que não utiliza sacos para a entrega dos produtos e possibilita reabastecimentos de areia perto do local de obra, promovendo maior economia de tempo e custos e contribuindo para a redução das emissões de CO2 associadas ao transporte.
O maior desafio da construção é transformar um setor tradicional num setor sustentável sem comprometer a viabilidade económica
Descrevem-se como líder mundial em construção sustentável. O que fazem de diferente para utilizarem este “jargão”?
Não é apenas uma designação, mas sim um compromisso real com soluções que respondem aos maiores desafios ambientais e sociais. As nossas marcas disponibilizam materiais recicláveis, com menor emissão de CO₂, promovem o bem-estar através da qualidade do ar interior, conforto térmico e acústico, e estão alinhadas com certificações internacionais como o LEED.
Acreditamos que liderar é antecipar tendências, e por isso investimos em eco inovação, na circularidade dos materiais e em modelos de construção com menor impacto ambiental e maior eficiência energética.
A construção tem um grande impacto no planeta, o que propõem para esta ser mais amiga do ambiente?
Propomos uma construção mais leve, eficiente, circular e com foco no bem-estar das pessoas. Isso traduz-se em soluções como isolamentos térmicos que reduzem até 80% o consumo energético, gessos com tecnologia que elimina até 70% dos COVs (Compostos Orgânicos Voláteis), argamassas com materiais reciclados e de base biológica, vidro reciclado com pegada de carbono 40% inferior à média europeia e ainda sistemas industrializados que reduzem desperdício em obra.
Tudo isto apoiado por serviços digitais, modelação BIM e apoio técnico que acelera a adoção de boas práticas no setor.
Nesta área, quais são os maiores desafios que enfrentam?
O maior desafio é transformar um setor tradicional num setor sustentável sem comprometer a viabilidade económica. A construção tem de ser mais rápida, leve, descarbonizada e circular. No entanto, é preciso ter em conta o desafio da capacitação técnica, adaptação a regulamentações e a consciencialização dos vários intervenientes, incluindo o promotor e o utilizador final.
Construir sustentável encarece a obra? Em quanto por cento?
O investimento inicial pode ser ligeiramente superior, dependendo das soluções falamos em percentagens que variam entre os 5% e os 10%, mas os benefícios ao longo do ciclo de vida do edifício são muito superiores. Uma construção bem isolada, por exemplo, gera poupanças energéticas que compensam rapidamente esse investimento. Além disso, há uma valorização do imóvel e melhor desempenho ambiental e de conforto.
A climatização é uma das maiores fontes de gasto energético. O que fazem e que conselhos dariam a quem estiver a remodelar ou a construir uma nova habitação ou escritório?
A eficiência energética está no centro da oferta da Saint-Gobain. Recomendamos começar sempre por uma boa envolvente térmica: isolamento adequado nas paredes e coberturas e janelas de elevado desempenho, com vidro Climalit Plus®.
Adicionalmente, conjugando sustentabilidade e eficiência, o isolamento térmico com lã mineral da Isover permite reduzir até 80% da energia necessária à climatização. Além disso, apostar em soluções passivas (orientação solar, ventilação cruzada), materiais com inércia térmica e sistemas de fachada leve, como o sistema Placotherm® Integra, são contributos fundamentais para o conforto e eficiência energética.
Na sua opinião o que distingue a construção tradicional deste novo tipo de construção?
Ao contrário da construção tradicional, em que paredes sólidas suportam o peso do edifício, a construção leve consiste em criar um esqueleto no qual sistemas de fachada leves e repartições internas não estruturais são adicionadas, com cerca de metade do peso.
Entre os seus principais benefícios estão a incorporação de menos 50% de carbono na estrutura e na envolvente dos edifícios ao longo de toda a vida útil dos materiais, a redução em cerca de 50% do consumo de matérias-primas e a obtenção de ganhos de produtividade entre 20 e 30% em certas etapas da produção, o que permite reduzir o impacto ambiental do processo de construção e otimizar o consumo de recursos, oferecendo um desempenho superior.
Os materiais que usam são todos de origem nacional? Se não, qual a percentagem e qual o valor do investimento por cá?
Trabalhamos com uma cadeia de fornecimento global e local. Muitos dos nossos produtos são desenvolvidos e produzidos em Portugal, mais concretamente, mais de 79% dos produtos que vendemos no país, com a marca Weber, foram desenvolvidos e são produzidos localmente.
Na nossa visão, a produção local apresenta diversas vantagens, como a maior sustentabilidade ambiental (por implicar menores circuitos de transporte e logo menor pegada carbónica associada), fomenta a economia local (ao privilegiar os fornecedores mais próximos), possibilita uma melhor adaptação dos produtos às necessidades do mercado e, por fim, permite um maior foco na redução do consumo e otimização de recursos, conscientes da importância de contribuir para uma economia circular.
Através do Grupo exportam material nacional para outras regiões? Se sim, quais e que tipo de material?
A presença do grupo em vários países permite que as operações industriais e comerciais das várias empresas sejam geridas localmente.
Um dos materiais mais difíceis de reciclar é o vidro, mas conseguem utilizar 70% do vidro reciclado? Pode falar sobre este tema…
A Saint-Gobain Glass consegue utilizar 70% de vidro reciclado (casco) na produção do ORAÉ®, o vidro base que integra as soluções de vidro duplo Climalit Oraé®, o que é algo particularmente relevante. A elevada incorporação de material reciclado permite uma redução significativa da pegada ambiental: o ORAÉ® apresenta uma pegada de carbono estimada em apenas 7 kg de CO2 equivalente por metro quadrado (para uma espessura de 4 mm), o que representa menos 40% face à média europeia de produção de vidro base.
Este compromisso com a sustentabilidade está presente em todas as etapas do seu processo de produção que recorre apenas aos recursos naturais estritamente necessários e a um rigoroso controlo de qualidade.
A par da redução do impacto ambiental, as soluções deste tipo de vidro mantêm um desempenho técnico elevado, com benefícios como eficiência energética, conforto térmico e acústico, e maior bem-estar para os utilizadores.
Importante ainda referir que estamos também a investir no desenvolvimento de serviços de reciclagem de vidro em Portugal, alinhando o ciclo de vida do produto com os princípios da economia circular. É uma área crítica para atingir os nossos objetivos de neutralidade carbónica até 2050.
Estratégia da empresa para a eco inovação e desenvolvimento de serviços de reciclagem em Portugal
Estamos a trabalhar em várias frentes: desde o ecodesign de produtos com menor impacto ambiental, até ao desenvolvimento de soluções circulares, como o reaproveitamento de gesso e embalagens recicladas.
O nosso foco está também em novos serviços de gestão de resíduos de obra e no apoio técnico aos profissionais para integrarem práticas mais sustentáveis. A nossa abordagem é colaborativa, envolvendo toda a cadeia de valor da construção.
Na sua opinião, quais são as tendências de mercado em termos de construção sustentável e como estão os outros países onde atuam? Ou seja, como está Portugal em comparação com outros mercados…
As principais tendências passam pela industrialização da construção, descarbonização, digitalização (como o uso da Metodologia BIM) e maior exigência nas certificações ambientais. Em Portugal tem vindo a evoluir, com cada vez mais projetos com certificação LEED ou BREEAM e maior consciência dos profissionais.
Além disso, observa-se uma crescente valorização dos materiais com menor pegada ambiental e maior eficiência energética, o que impulsiona a procura por soluções como isolamentos naturais, sistemas leves e recicláveis, e produtos com Declarações Ambientais de Produto (DAPs).
A circularidade também ganha destaque, com iniciativas de reutilização de materiais e redução de resíduos no canteiro de obras. Esta abordagem mais holística e integrada à sustentabilidade tem sido incorporada de forma crescente nos projetos, especialmente em países onde os investidores e promotores já incluem critérios ESG como fator decisivo nas suas escolhas.
Estamos no caminho certo, mas é fundamental acelerar a adoção destas práticas, nomeadamente em obras públicas e reabilitação urbana.
Algo mais que deseje acrescentar.
Gostaríamos de destacar que a Saint-Gobain tem um papel ativo na promoção da construção sustentável, ajudando a alcançar os mais elevados níveis na certificação internacional LEED (Leadership in Energy and Environmental Design).
Através das marcas Isover, Placo®, Weber e Climalit Plus®, disponibilizamos soluções inovadoras que contribuem para uma elevada pontuação nesta certificação, reforçando o nosso compromisso com práticas construtivas de baixo impacto ambiental. Num setor que representa cerca de 39% das emissões globais de CO₂, a urgência em transformar os métodos construtivos é clara.
As nossas soluções em lã mineral, gesso, argamassas industriais e vidro de alto desempenho destacam-se pela eficiência energética, melhoria da qualidade do ar interior, reaproveitamento de materiais, conforto térmico e acústico.
Isolamentos com lã mineral da Isover podem reduzir até 80% do consumo energético para climatização, enquanto a tecnologia Activ’Air® da Placo® elimina até 70% dos Compostos Orgânicos Voláteis (COV).
A Weber integra materiais reciclados e biológicos como cortiça nas suas argamassas e sistemas ETICS, e a Climalit Plus® apresenta soluções como o vidro ORAÉ®, com 70% de vidro reciclado e menos 40% de pegada de carbono.
E a gestão de resíduos?
Estamos a desenvolver em Portugal serviços de apoio à gestão de resíduos e programas de reciclagem.
Reforçando este compromisso, lançámos um eBook que mostra de forma detalhada como estas soluções contribuem para a certificação LEED, servindo como ferramenta prática para arquitetos, engenheiros e equipas de projeto que pretendem alinhar os seus edifícios com os mais exigentes padrões de sustentabilidade.
Asier Amorena, CEO da Saint-Gobain Portugal in Sustentix.