Igualdade salarial: efeito na cultura organizacional e sustentabilidade

Rita Bastos, Diretora Geral Glassdrive e Saint-Gobain Sekurit

A igualdade salarial entre homens e mulheres é um princípio fundamental para a construção de uma sociedade justa e equitativa.

No entanto, apesar dos avanços nas últimas décadas, ainda persiste uma disparidade salarial significativa, que reflete uma desigualdade estrutural que precisa de ser urgentemente enfrentada. 

De acordo com o CITE, as diferenças remuneratórias de 2024, relativas ao ano de 2022, indicam que as mulheres ganham, em média, 13,2% menos do que os homens quando se considera o salário base. Este valor, embora significativo, representa apenas uma parte da realidade, uma vez que, ao incluir os ganhos totais — isto é, prémios, subsídios regulares e remuneração por trabalho suplementar — a diferença atinge 16,0%.

Esta análise revela uma disparidade mais abrangente do que a simples diferença no salário base, com as mulheres a receberem, em média, €235,10 a menos do que os homens. Para ilustrar a dimensão dessa desigualdade, considerando o diferencial no salário base, seria como se as mulheres portuguesas, em 2022, tivessem trabalhado 48 dias sem receber qualquer compensação pelo seu trabalho.

 

Um reflexo de crenças persistentes e a urgência da mudança

Estas disparidades são um reflexo de uma sociedade que precisa urgentemente questionar e abandonar as crenças que perpetuam comportamentos discriminatórios, pois são essas crenças que sustentam um sistema que subvaloriza o trabalho das mulheres. Nesse sentido, corrigir as desigualdades salariais não é apenas uma questão de justiça, mas também uma necessidade iminente, uma vez que as desigualdades não refletem o mérito ou o esforço individual. Além disso, estão desfasadas da realidade atual, na qual a participação das mulheres no mercado de trabalho a tempo inteiro é comparável à dos homens, e os níveis educativos das mulheres, em média, são superiores

É imprescindível reconhecer que, na sociedade contemporânea, todos os incentivos são necessários, uma vez que, apesar da existência de legislações que visam erradicar a desigualdade salarial, muitas empresas e setores ainda não as cumprem de forma eficaz.

 

Progresso, desafios e a importância da transparência

As quase 15 mil empresas que receberam o Selo da Igualdade Salarial este ano representam um progresso positivo, com um aumento de 4,8% em relação ao ano anterior. Contudo, este crescimento evidencia que a igualdade salarial ainda não está completamente integrada na cultura corporativa.

Caso fosse um objetivo verdadeiramente partilhado, a sua implementação não exigiria incentivos externos. O princípio “salário igual para trabalho igual ou de valor igual” deveria ser uma prática consolidada, abrangendo tanto o salário base quanto os componentes variáveis, de forma a garantir uma abordagem equitativa no reconhecimento das contribuições de todos os trabalhadores.

A meu ver, estes tipos de iniciativas revestem-se de uma importância fundamental no contexto atual, pois não apenas representam um compromisso público explícito de empresas que se empenham na implementação de práticas laborais mais justas e equitativas, mas também colocam a questão da igualdade salarial no centro da discussão pública e corporativa, fomentando um debate contínuo sobre as disparidades remuneratórias.

O seu papel é igualmente crucial na disponibilização de dados estatísticos sobre estas desigualdades, uma vez que não apenas permite monitorizar a evolução do tema, mas também garante maior transparência e responsabilização das empresas, impulsionando a construção de uma cultura organizacional mais alinhada com os princípios de equidade e justiça social

A implementação da igualdade salarial não pode ser reduzida a um mero exercício de responsabilidade social corporativa; deve ser encarada como uma resposta firme e necessária a uma desigualdade estrutural profundamente enraizada no mercado de trabalho. Corrigir essa disparidade não é apenas uma questão de ética, mas um princípio fundamental e inalienável, essencial para assegurar que mérito e competência sejam reconhecidos e valorizados de forma justa e imparcial de forma a colmatar a falha estratégica que desconsidera o valor dos talentos e limita o potencial coletivo. Garantir a equidade salarial é, portanto, uma obrigação imprescindível para qualquer país que ambiciona prosperar de maneira sustentável, justa e com pleno respeito pelos direitos de todos os seus cidadãos.

 

Rita Bastos, Diretora Geral da Glassdrive e da Saint-Gobain Sekurit Service Portugal, in Executive Digest.