Integrar imigrantes nas empresas nacionais? Estas são as chaves para o sucesso

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Em entrevista à Revista Sustentável, Maria Novais, Diretora de Recursos Humanos da Saint-Gobain Portugal, abordou a importância de integrar imigrantes nas empresas em Portugal, qual o contributo que podem dar e o seu impacto.

 

  • Muito se tem falado sobre o tema das migrações. No vosso caso, nas vossas equipas, contam com colaboradores imigrantes? Estamos a falar de quantas pessoas e em que áreas da vossa atividade?

O Grupo Saint-Gobain valoriza a diversidade e a inclusão e isso reflete-se nas nossas equipas. Atualmente, em Portugal, contamos com 64 estrangeiros de 15 nacionalidades no nosso efetivo, sendo neste momento a nacionalidade estrangeira com mais predominância a brasileira. Estes colaboradores estão distribuídos principalmente pelas áreas de Produção e Logística, mas também em áreas de IT, Marketing, entre outras.

  • Desde a recuperação pós-pandemia que os empregadores têm alertado para a escassez de mão-de-obra. Também a têm sentido?

O setor de produção e comercialização de produtos para a construção, onde estamos maioritariamente inseridos, já era um setor com alguma dificuldade de atração de mão de obra antes do Covid. A recuperação económica pós-pandemia veio ainda acelerar mais a procura por colaboradores ficando a oferta de mão-de-obra ainda mais reduzida.

Após a recuperação económica pós-pandemia, temos também notado que a escassez de mão-de-obra não é somente em postos menos qualificados, mas também em postos que requerem maior qualificação.

Esta situação tem criado desafios significativos para manter a produtividade e a qualidade dos serviços.

  • Nessa linha, que contributo podem dar, na vossa visão, as mãos estrangeiras para a resolução (ou, pelo menos, mitigação) deste problema?

Os colaboradores estrangeiros vieram dar um contributo crucial para mitigar a escassez de mão-de-obra. Estes trazem consigo uma diversidade de competências e experiências que são essenciais para preencher as lacunas em setores que enfrentam dificuldades de recrutamento.

A sua disponibilidade para assumir funções que muitas vezes são menos atrativas para a mão-de-obra local ajuda a manter o fluxo de trabalho mais contínuo e a reduzir interrupções nos serviços.

E, em áreas mais especializadas como engenharia, arquitetura, gestão de projetos e outras, podem contribuir significativamente para melhorar a qualidade e a inovação dos produtos e processos.

  • Que dificuldades (burocráticas, mas não só) têm enfrentado ao contratar colaboradores imigrantes?

A principal dificuldade que enfrentamos é a burocracia envolvida no processo de contratação de colaboradores estrangeiros. Os processos de obtenção de vistos e autorizações de trabalho podem ser longos e complicados. No caso de colaboradores qualificados, a falta de reconhecimento de diplomas e qualificações estrangeiras é também um obstáculo significativo.

Além disso, há desafios relacionados com a integração cultural, sendo este fator crítico para a adaptação a um novo ambiente cultural e desafiador tanto para os colaboradores imigrantes como para as equipas locais, exigindo esforços adicionais de integração e formação intercultural. Temos também a barreira linguística que pode ser um obstáculo significativo na comunicação diária e no cumprimento das normas de segurança e qualidade.

  • Da vossa experiência, qual é a chave para a boa integração destes colaboradores nos fluxos já existentes de trabalho?

A chave para a boa integração dos colaboradores imigrantes inclui:

Proporcionar formação inicial abrangente e orientação contínua aos novos colaboradores para compreenderem os processos e as expectativas.

Oferecer aulas de língua portuguesa e suporte linguístico no local de trabalho para facilitar a comunicação e a integração.

Atribuir mentores ou colegas experientes para acompanhar os novos colaboradores, de forma a acelerar a sua adaptação e promover um ambiente de apoio.

Promover atividades que celebrem a diversidade cultural e incentivem a convivência entre diferentes culturas para ser possível ter um ambiente de trabalho mais inclusivo e coeso.

  • De modo global, que vantagens trazem estes colaboradores às equipas? A valorização da diversidade também passa por aqui?

Os colaboradores imigrantes trazem uma série de vantagens significativas para as nossas equipas. Estes contribuem com diferentes perspetivas e abordagens para a resolução de problemas, o que pode levar a soluções mais inovadoras e criativas. A diversidade cultural nas equipas aumenta a capacidade de adaptação a novos desafios e mercados, promovendo uma mentalidade global que é essencial no mundo empresarial atual.

A sua disponibilidade e disposição para trabalhar em setores com maior escassez de mão-de-obra ajudam a manter a continuidade dos negócios e a atender às necessidades do mercado.

Além disso, colaboradores com experiências internacionais podem também oferecer insights valiosos sobre as melhores práticas de outras regiões, melhorando a nossa eficiência e competitividade.

  • Para terminar, que vos parece o novo plano para as migrações? Que impacto poderá ter na disponibilidade de mão-de-obra?

O novo plano para as migrações divide-se em quatro grandes eixos de atuação: imigração regulada; atração de talento estrangeiro; integração humana que funciona; reorganização institucional. Este novo plano pretende ser um passo positivo na criação de um quadro mais flexível e eficiente para a integração de colaboradores imigrantes.

Ao simplificar os processos de imigração e ao promover a entrada de colaboradores qualificados, o plano pode ajudar a mitigar a escassez de mão de obra em vários setores. Este é especialmente importante em áreas onde a procura por competências específicas é elevada e a oferta local é insuficiente. Além disso, ao proporcionar melhores condições de acolhimento e integração para os imigrantes, o plano pode melhorar a retenção desses colaboradores, garantindo que se sintam valorizados e motivados a contribuir a longo prazo.

A inclusão de colaboradores estrangeiros pode também enriquecer o tecido social e económico do país, trazendo novas perspetivas e experiências que podem impulsionar a inovação e o crescimento. Em resumo, o novo plano para as migrações deve ser aplicado de forma consciente e equilibrado, pois tem o potencial de fortalecer significativamente a nossa economia e a competitividade global, ao assegurar uma força de trabalho diversificada e qualificada.

 

Maria Novais, Diretora de Recursos Humanos da Saint-Gobain Portugal in Revista Sustentável.